quarta-feira, 10 de dezembro de 2014

Talho exato
Em carne marcado
Teu sexo
Emancipa sonhos
Que eram desejos
No sono da ausência.

Simétrico e quente
Geométrico e doce
É música no silêncio
Alvoreceres, dádiva
A olhos atentos
E disritmias em curso.

Como então dizer não
Se pulsa e chama
Quase clama
Em promessa
De um paraíso
Que se ostenta na cama

Úmido
Túrgido
Pronto,
Esperando só
Que eu me dispa do encanto
E comece?

Francisco Costa

Rio, 09/12/2014.

UM QUASE POEMA COM RAIVA

(Em resposta a um indigente mental)

Então queres que eu me assuma bolivariano?
O que é isso? Alinhamento com a Bolívia
Ou o assumir os ideais de Simón Bolívar?

Se por bolivariano entendes o revoltado
Que cansou de ver o sangue nordestino
Transformado em hot dog e corn flakes,
Nas lanchonetes da Wall Street e 5ª avenida;
De chorar pela legião de miseráveis,
Filhos do saque, da expropriação, do ódio...

Ou talvez porque não aceite o nosso solo
Aberto, craterado, como vaginas expostas
Nos prostíbulos do capital, gigolô impiedoso
Saciando-se de minérios em troca de maus tratos...

Quem sabe se porque invisível âncora
Mantêm-me atrelado ao meu país,
 Cansado de ser pasto dos que aqui pastam e cagam?

Não seria por essa minha ojeriza ao que não se quer
Fome, indigência, carência... Cultivando a inocência
De crer que todos os homens são iguais, merecedores
De partilharem a riqueza e a miséria, risos e lágrimas,
Sem beneficiários, privilegiados, proprietários de todos?

Ou porque se, sociologicamente daltônico,
Não percebo diferenças entre brancos e negros;
Analfabeto nas matemáticas, eu não consigo
Medir dimensões por quantidade de dinheiro nos bolsos?

Não sei, mas se for pelos motivos que apontei...
Sou réu confesso: bolivariano sim, e possesso!

Francisco Costa

Rio, 06/12/2014.